Vicente José de Sousa Magalhães
Grande Benfeitor da Misericórdia do Porto

O desembargador Vicente José de Sousa Magalhães era filho de Manuel Dias e irmão de António Caetano de Sousa Magalhães, ambos irmãos da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Casou com D. Catarina Luísa de Azevedo Montenegro, da qual ficou viúvo e não teve descendência.

Vicente José e o seu irmão António Caetano eram irmãos de primeira condição da Misericórdia do Porto, enquanto o pai destes era apenas de segunda condição. Este facto atesta a ascensão social obtida por esta família. Manuel Dias iniciou a sua atividade como sapateiro, tornando-se depois homem de negócios de "grosso trato". Foi eleito almotacé em 1709. Entre outras funções, cabia ao almotacé verificar a boa distribuição de mantimentos e de outros géneros na cidade e controlar os preços de venda destes produtos.

Quanto a António Caetano, foi superintendente da Ribeira de Ouro da cidade do Porto. Este cargo havia sido adquirido por Manuel Dias por cerca de 116 contos de reis.

Vicente José exerceu o cargo de assistência ao presídio na cidade de Coimbra, enquanto na Misericórdia do Porto teve, em 1765, o cargo de conselheiro da mesa.

No Livro de Honra para Memória dos Benfeitores pode ler-se que encarregou a Santa Casa da Misericórdia do Porto da execução das suas disposições testamentárias com o prémio de quatro centos mil reis e da posse de uma quinta que possuía em Leça. Através da leitura do seu testamento, constatamos ter existido uma contenda entre o benfeitor e a sua cunhada, viúva de seu irmão, a quem pertencia o morgadio cujo vínculo nunca fora registado. Embora no testamento de Manuel Dias o seu filho Vicente apareça como "cabeça de casal", o morgado, no entanto, era o seu irmão António, não tendo sido realizadas partilhas entre os irmãos. Saliente-se que nesta contenda foi requerido inventário, o qual constava de várias propriedades e de um recheio valiosíssimo.

A título de curiosidade, no testamento de Vicente José podemos encontrar a seguinte disposição: "Declaro que entre os bens de que sou senhor, e possuidor, submoventes são seis escravas, a bem a ser Antonia Maria, Bernardina Thereza, Maria de Jesus, Maria Damiana, Maria Jozefa, Maria do Rozario, às quais lhe dou libardade [liberdade], que logo pela minha morte se vereficará [verificará], ficando cada huma [uma] senhora de si, e as tiro da escravidão, em que se acham, pelo bem que me tem servido, e caridade com que me tem tratado?".

Faleceu a 21 de junho de 1785, tendo sido sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. À data da sua morte, Vicente José morava na rua das Flores na Casa dos Sousa e Silva, que se encontra localizada no gaveto formado por esta rua e pela rua do Ferraz e que exibe, na sua frontaria, uma pedra de armas, de 1703, esquartelada de Sousa do Prado e de Silva.

O seu retrato, exposto na Sala dos Benfeitores, é uma pintura a óleo sobre tela atribuída a João Ströberlle Glama (1708-1792), pintor e arquiteto de origem alemã que foi um importante retratista que viveu e morreu na cidade do Porto. Enquanto arquiteto realce-se a planta que concebeu para a Igreja da Lapa, que acabaria por ser posta de lado e substituída pela de José Figueiredo Seixas.

Provavelmente, este retrato proveio do espólio de algum legado, dado que era comum existir nas casas ricas da cidade retratos de Glama. O benfeitor retratado apresenta-se de uma forma rígida, salientando-se o seu olhar penetrante como se nos estivesse a observar. Exibe a cruz de Cristo, indicando-nos que era cavaleiro desta Ordem.