D. Lopo de Almeida
Grande benfeitor da Misericórdia do Porto

Este importante benfeitor assume uma presença marcante e omnipresente na história da Misericórdia do Porto. Foi o seu legado que permitiu uma maior autonomização da instituição, numa altura em que ainda estava muito dependente do apoio régio.

É crível que D. Lopo tenha nascido por volta de 1525. Pertencia à linhagem dos Almeidas com ligações à nobreza de Abrantes, protegida por D. João II. Era o quinto filho entre 12 (7 irmãos e 5 irmãs).

A sua formação e a sua própria vida foram marcadas por uma assinalável mobilidade geográfica. Terá privado, na meninice e adolescência, com o seu tio-avô D. Jorge de Almeida, bispo de Coimbra, no intuito de seguir uma carreira clerical. Em 1544 parte para Bordéus como bolseiro, estudando gramática e latim, seguindo para Paris em 1546. Dois anos mais tarde encontra-se na Flandres regressando a Portugal em 1550. No final deste mesmo ano é preso pela Inquisição sob a acusação de conversão ao Luteranismo, tendo abjurado, ou seja, renunciado à religião, considerada falsa pelo Santo Ofício. Acabou por ser libertado do cárcere em agosto de 1551, após o perdão concedido pelo cardeal D. Henrique.

É imperioso realçar a sua ligação com Filipe II de Espanha, aquando do processo de anexação da coroa portuguesa em 1580. Os serviços prestados valeram-lhe o cargo de capelão do monarca hispânico.

No dia 29 de janeiro de 1584 morre em Madrid. Por testamento de 25 do mesmo mês, legava os seus abundantes bens à Santa Casa da Misericórdia do Porto, desde que esta se dispusesse a observar determinadas condições. A primeira e principal era que mandasse recolher continuadamente os enfermos e lhes fornecesse tudo o que necessitassem por conta da sua herança, e isto de modo permanente e contínuo. Toda a sua fortuna, acrescenta, teria que ser consumida na cura dos pobres. A experiência da Misericórdia do Porto nesta área vinha demonstrando que o cuidado pelos doentes pobres exigia um local apetrechado e equipado para o efeito. Por razões de eficácia, a instituição sentiu que teria de construir um hospital, digno desse nome, para tratar os enfermos. Tal, porém, só veio a acontecer duas ou três décadas depois.

Todavia, o provedor e a Mesa foram pressionados a fazer de imediato algo de concreto em favor dos doentes pobres. A isso os obrigavam as disposições do testamento de D. Lopo de Almeida, que estipulavam que, se a Misericórdia do Porto não cumprisse o que ele mandava, a herança passaria sucessivamente para as Misericórdia de Braga ou para a de Lamego. Por isso, o provedor, o escrivão e a Mesa Administrativa da Misericórdia do Porto trataram de adaptar a hospital as antigas instalações do Rocamador, que haviam sido libertadas em 1587 pelos chefes militares castelhanos que, após a conquista de Portugal em 1580, o haviam transformado em hospital militar. Não sendo, pois, uma instituição inteiramente nova, parece aceitável que o antigo hospital de Rocamador, renovado pelas circunstâncias da sua retoma pela Misericórdia do Porto, tenha sido aproveitado para se dar cumprimento inicial ao testamento de D. Lopo de Almeida.

Uma nota curiosa, no seu generoso testamento para a Misericórdia portuense, reside no facto de o benfeitor não ser do Porto, nem se ter conhecimento de alguma vez aí ter residido.

Em 1605 tomou-se formalmente a decisão de construir o novo hospital, conforme a inscrição que ainda existe gravada na pedra, existe na Galeria dos Benfeitores. Em meados de 1610 a nova casa abriu as suas portas aos primeiros doentes, embora as obras prosseguissem até 1615.

Durante quase dois séculos o hospital de D. Lopo de Almeida serviu a população do Porto e do seu Termo. Ainda hoje, decorridos mais de 400 anos, no dia 29 de janeiro de cada ano, a Misericórdia promove a celebração de uma missa pela sua alma e, em conformidade com uma das suas disposições testamentárias, veste cinco necessitados.


Roteiro de D. Lopo de Almeida

MMIPO
> Sala 01 - História e Ação da Misericórdia do Porto: Hospital de Rocamador e Hospital de D. Lopo de Almeida
> Sala 02 - Benfeitores: Livro de Honra para Memória dos Benfeitores
> Galeria dos Benfeitores: Inscrição alusiva ao Hospital de D. Lopo
> Igreja Privativa: Urna de D. Lopo de Almeida

Rua das Flores/Rua dos Caldeireiros
> Antigo Hospital de D. Lopo de Almeida


Retrato de D. Lopo de Almeida

Realizado em 1890 por Vitorino Ribeiro, a partir de um quadro do pintor Francisco Mendes Lima, o retrato de D. Lopo de Almeida terá tido como modelo o de Manuel Fernandes de Calvos, outro grande benfeitor da Misericórdia. Essa influência verifica-se no esquema da composição e em algumas figuras. De facto, as crianças, as religiosas e os pedintes que D. Lopo ouve e auxilia no cenário exterior lembram o retrato citado, onde aparecem em situação semelhante, assim como o cromatismo que recorre a tons terrosos e acastanhados.

D. Lopo surge-nos, no cenário interior, como uma figura de meia idade, de pé, envergando vestes sacerdotais, orando perante uma cruz e segurando nas mãos um livro de orações. Encontra-se junto a uma mesa, sobre a qual estão colocados um tinteiro, uma sineta, entre outros objectos. Um pergaminho sob o tinteiro revela as suas disposições testamentárias. Uma porta estabelece a separação entre os dois cenários que, alegoricamente, remetem-nos para a figura retratada, dividida entre os mundos intimista e mundano.


D. Lopo de Almeida
Joaquim Vitorino Ribeiro
1890
Cópia de um exemplar de Francisco Mendes Lima
Óleo sobre tela